6: Tema algo vago, mas tem alguma coisa a ver com desgraças entre quatro paredes...
"Espero que hoje ele morra", desejou outra vez Antonieta, com todo o amor que tinha. Jorge, o filho, não parava de berrar, e de a socar com toda a força escondida nos braços esguios e esburacados. Ao longe, ouvia-se já a sirene da polícia. Algum dos vizinhos devia tê-los chamado, com certeza. "Meu Deus, que vergonha!"
Antonieta sempre gostara de viver isolada. Nunca se metera nas vidas alheias, e quanto menos soubessem da sua, melhor. Os seus assuntos só a si diziam respeito. A si e aos seus, primeiro ao marido, e mais tarde ao filho. Numa das poucas ocasiões em que cedeu á vizinha do andar de baixo, e passou quase dez minutos a ouvi-la falar do que não lhe dizia respeito, Antonieta soube que tinha reputação de só falar por sussurros. Nunca tinha dado por isso, mas talvez fosse verdade. Ela sempre gostou pouco de barulho.
Quando o marido morreu, o barulho começou. Quer dizer, barulho já havia há muito. O Jorginho sempre foi um espalha-brasas, coisa que nunca lhe agradou. Mas o marido acalmava-a a ela, não a ele. "É normal, deixa lá o miúdo", dizia.
Agora já não o podia deixar em paz, nem que quisesse. Jorge era seu filho. Ele podia ter-lhe destroçado a casa, destruido a vida, e despedaçado o coração. Mas era seu filho. Ela tinha que ficar com ele até ao fim. Só não tinha decidido que fim deveria chegar primeiro, o dela ou o dele.
Os punhos continuavam a cair sobre ela, e aquela voz poderosíssima continuava a anunciar ao bairro a sua desgraça. "Tu queres que eu morra! A puta da velha quer que eu morra! Dá-me o dinheiro, dá cá! Dá cá!" As vogais com que Jorge fechava as frases pareciam sempre intermináveis, por alguma razão.
E sim, Antonieta queria que Jorge morresse. Queria paz, para ele e para ela. Mas se calhar, só por pensar isso, quem merecia morrer era ela. E ao mesmo tempo que desejava que Jorge morresse, desejava que ele a matasse, por isso não lhe dava o que ele queria.
Mas eventualmente, ela cederia, e dar-lhe-ia o dinheiro. Não porque não aguentasse a dor, mas porque não suportava saber que os vizinhos estavam a ouvir. A vergonha doía-lhe mais. Era por isso que acabava por ceder sempre, e porque estava a ceder agora, antes que, mais uma vez, toda a gente visse o seu filho a ser levado para a esquadra.
Antonieta deu a Jorge o que ele queria, e ele foi-se. E ela ficou em casa, mais uma vez sozinha, a desejar que chegue um dos fins, chorando.
Mas chorando baixinho.
Antonieta sempre gostara de viver isolada. Nunca se metera nas vidas alheias, e quanto menos soubessem da sua, melhor. Os seus assuntos só a si diziam respeito. A si e aos seus, primeiro ao marido, e mais tarde ao filho. Numa das poucas ocasiões em que cedeu á vizinha do andar de baixo, e passou quase dez minutos a ouvi-la falar do que não lhe dizia respeito, Antonieta soube que tinha reputação de só falar por sussurros. Nunca tinha dado por isso, mas talvez fosse verdade. Ela sempre gostou pouco de barulho.
Quando o marido morreu, o barulho começou. Quer dizer, barulho já havia há muito. O Jorginho sempre foi um espalha-brasas, coisa que nunca lhe agradou. Mas o marido acalmava-a a ela, não a ele. "É normal, deixa lá o miúdo", dizia.
Agora já não o podia deixar em paz, nem que quisesse. Jorge era seu filho. Ele podia ter-lhe destroçado a casa, destruido a vida, e despedaçado o coração. Mas era seu filho. Ela tinha que ficar com ele até ao fim. Só não tinha decidido que fim deveria chegar primeiro, o dela ou o dele.
Os punhos continuavam a cair sobre ela, e aquela voz poderosíssima continuava a anunciar ao bairro a sua desgraça. "Tu queres que eu morra! A puta da velha quer que eu morra! Dá-me o dinheiro, dá cá! Dá cá!" As vogais com que Jorge fechava as frases pareciam sempre intermináveis, por alguma razão.
E sim, Antonieta queria que Jorge morresse. Queria paz, para ele e para ela. Mas se calhar, só por pensar isso, quem merecia morrer era ela. E ao mesmo tempo que desejava que Jorge morresse, desejava que ele a matasse, por isso não lhe dava o que ele queria.
Mas eventualmente, ela cederia, e dar-lhe-ia o dinheiro. Não porque não aguentasse a dor, mas porque não suportava saber que os vizinhos estavam a ouvir. A vergonha doía-lhe mais. Era por isso que acabava por ceder sempre, e porque estava a ceder agora, antes que, mais uma vez, toda a gente visse o seu filho a ser levado para a esquadra.
Antonieta deu a Jorge o que ele queria, e ele foi-se. E ela ficou em casa, mais uma vez sozinha, a desejar que chegue um dos fins, chorando.
Mas chorando baixinho.


4 Comments:
Um quadro da vida. Negro, mas talvez nem tanto como a própria vida. Óptima a leitura do Luís Gaspar.
Um abraço
António
Também gostei muito da leitura. Epá, e o Rui nunca mais me manda aquela fotografia nossa...:)
Abraço...
Um quadro realista de uma verdade gritante.
Infelizmente existem muitas Antonietas e Jorges...
Gostei do frontalismo da história .
Um abraço ;)
vamos a vwer se é desta:)
quadro pintado em cores cruas e reais
gostei muito
xi
maria de são pedro
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