O Armário das Calças (fundo de armário)...

As cenas que vou escrevendo no curso de escrita criativa...

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Saturday, May 27, 2006

3: O Urbano começa a história, nós acabamo-la como nos apetecer

[Trecho em itálico escrito por Urbano Tavares Rodrigues]

Pela janela entra a luz do bosque, ouro e verde.
Duarte, já vestido, vai espreitar as nuvens, por entre as quais começa a surgir um sol ainda húmido e fugidio, que parece ter nascido lá longe, dentro do mar.
- Vais sair? Tão cedo...
- Olha que não, esta noite dormimos muito. Vou só comprar os jornais e cigarros.
Cláudia, que aos sábados costuma preguiçar até tarde, pede-lhe com insistência:
- Leva o carro. Não vás a pé pelo meio do bosque. Lembra-te das pessoas que já lá desapareceram.
Duarte curva-se para lhe dar um beijo e tranquiliza-a:
- Está descansada, levo o automóvel.
Mas o Citroën C3, que passou a noite ao relento, pois a casa de praia não tem garagem, recusa-se a pegar. Ainda se fosse só questão de bateria... Mas Duarte pouco sabe de mecânica e não consegue atinar com a causa da avaria.
Mete-se então a caminho pela vereda que mais depressa o levará à estrada marginal. É tão cerrada a folhagem das bétulas de tronco branco ou a dos velhos carvalhos que ali predominam; até os pinheiros altíssimos estão quase unidos. Mal se divisa agora o atalho sinuoso, por onde esvoaçam tordos e melros.
A certa altura Duarte vê sobre um rochedo cheio de musgo uma rapariga sorridente, de camisola justa e com uns jeans de marca, rasgados aqui e ali, que devem ter custado uma fortuna.
- Olá - diz ela-, então por cá? Que satisfação!
- Não consigo lembrar-me de onde a conheço.
- Pois não. Mas vamos conhecer-nos melhor. Escute,
eu vou até à aldeia. Quer fazer-me companhia?
Duarte hesitou. A situação era demasiado estranha, e apesar da sensação de familiaridade, ele não sabia quem era a rapariga, nem o que estava ali a fazer. Além disso, nestes meios pequenos os boatos correm depressa. Que diriam da rapariga se a vissem sair do bosque com um estranho a seu lado?
Mesmo assim, o caminho era só um. Se ela o decidisse seguir, não haveria muito a fazer. Duarte acedeu ao pedido, e seguiram caminho.
Não demorou muito até que Duarte cedesse á sua curiosidade.
- Diga-me uma coisa... Bom, diga-me duas. Antes de mais, como se chama?
- Mafalda.
Estranhamente, o nome era familiar a Duarte, apesar de não se recordar de alguma vez ter conhecido outra Mafalda.
- Diga-me uma coisa, Mafalda: que estava a fazer lá atrás? Parecia estar á espera de algo...
- E estava. Um... amigo... deixou-me lá durante a noite. Já tínhamos bebido bastante, e devia apetecer-lhe estar sozinho comigo, por isso trouxe-me para o bosque.
Duarte não conseguiu reprimir um sorriso. Também ele tinha feito das suas naquele bosque, das duas vezes que alí passara o Verão. Mas a sinceridade da rapariga agradava-lhe, e sentiu-se algo culpado.
- Deixe-me adivinhar: á Mafalda não apetecia tanto estar com ele como a ele apetecia estar consigo, e ele deixou-a sozinha.
- Foi isso mesmo. - sorriu a rapariga - Disse que se ia... aliviar... e nunca mais voltou. Eu sei que ele bebeu bastante, mas mesmo assim, já devia estar despachado.
- E não teve medo? O bosque á noite deve ser assustador. Ainda por cima, a reputação dele não é das melhores...
- Pois, as histórias de fantasmas, não é? Eu não acredito nessas coisas. Mas tive medo, claro! Só que não encontrei o caminho. Não tinha luz, e além disso não foi só ele a beber bastante, de forma que decidi esperar que ele voltasse.
- Bom, se não voltou, não pode ser grande amigo...
A conversa podia ter continuado, mas não houve tempo para mais. Ao chegar á aldeia, despediram-se. Antes que Duarte pudesse reagir, Mafalda, de um salto, beijou-o no rosto, e seguiram em direcções opostas.
Mais tarde, já com os jornais na mão e os cigarros no bolso, Duarte volta a dirigir-se para o bosque.
Não precisou de mais que alguns metros de caminho para se sentir inquieto. A paisagem fechada parecia intimidá-lo mais que na viagem para a aldeia, por alguma razão. Talvez fosse por agora não ter companhia, por ridículo que isso lhe parecesse. Afinal de contas, um adulto não precisa de uma adolescente a seu lado para lhe dar coragem. Ou não devia precisar.
- Olá outra vez! - o grito veio de trás, mas Duarte reconheceu Mafalda sem precisar de se virar. Até porque ela depressa surgiu á sua frente.
- Olá! Parece que a Mafalda, agora que se habituou ao bosque, não quer outra coisa.
- Desde que a companhia seja boa, não me importo.
Desta vez falaram de mais coisas. Da história da terra, das vezes que Duarte lá estivera na sua juventude, das lendas sobre fantasmas e vinganças que se contam sobre o bosque... Até sobre futebol, mas disso Mafalda percebia pouco.
Quando voltaram a ver o rochedo onde se encontraram, Duarte voltou a pensar no que acontecera a Mafalda.
- Mesmo assim, a Mafalda até teve sorte. Fantasmas ou não, sabe-se lá o que lhe poderia ter acontecido aqui. Especialmente estando algo embriagada.
Ao dizer estas palavras, os olhos de Duarte foram atraidos por uma mancha vermelha-escura no rochedo com musgo onde Mafalda se sentara. A mancha era antiga, mas não percebia como não a vira antes.
- Realmente! Podia até ter tropeçado e batido com a cabeça num rochedo, ou coisa parecida. Certas pessoas não pensam nessas coisas, não é, Duarte?
Ao ouvir o seu nome, que nunca lho dissera, Duarte voltou-se para Mafalda. A última coisa que viu foi uma pedra cair sobre a sua cabeça. De relançe, a pedra pareceu-lhe bastante pesada e aguçada.
E era.

1 Comments:

Blogger RD said...

Excelente, Luís, bem escrito e estruturado. Caiu-me no goto na minha vertente de histórias de mistério.

QUERO MAIS :-D

Abraço!
Diniz

9:52 PM  

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